Saúde Mental: não à remanicomialização do cuidar

16/05/2019 -20H44

                O Conselho Regional de Psicologia de Sergipe -19ª Região, por meio do Grupo de Trabalho de Saúde Mental, realizou nesta sexta (17) e sábado (18), o I Seminário do GT de Saúde Mental. O evento realizado na Faculdade Estácio de Sá, em Aracaju (SE) reuniu estudantes, professores, psicólogos, pesquisadores, trabalhadores e usuários da rede de assistência psicossocial de Sergipe.   

                 Na tarde de credenciamento, membros do GT promoveram atividades de Economia Solidária,  apresentação do Teatro Vida in Cena,  mostra audiovisual com o Filme Dizheroi, Práticas integrativas – MOPS, oficina de fanzine,  minicursos para profissionais do CAPS com foco em redução de danos e arteterapia.

                 No primeiro ato da abertura oficial do evento, o momento especial ficou por conta de uma apresentação de dança. Em cada movimento, Geovânia Nogueira de Oliveira, usuária do CAPS Atalaia, deu vida as suas criações. “Com a oficina de dança eu me redescobri. Troquei a pedra (crack) pela arte. E hoje  sou feliz sem as drogas”.  

                 “Saúde Mental e democracia: Os efeitos do cenário político atual sobre a subjetividade do povo brasileiro” foi o tema da primeira mesa. Entre os debatedores, Helmir Oliveira Rodrigues, Doutor em Psicologia, Eduardo Ribeiro,  Mestre em História e Membro da Rede Latino Americana e do Caribe de Pessoas que Usam Drogas e Mônica de Oliveira Nunes, médica com especialização em Psiquiatria.

                 Para Dra. Mônica de Oliveira Nunes, a saúde mental, hoje no Brasil, enfrenta uma série de ataques por conta de uma política totalmente oposta à reforma psiquiátrica e de um projeto de desmonte das políticas públicas sociais. “O governo ataca pelos dois lados porque traz de volta os manicômios e, buscando um outro público, as comunidades terapêuticas. Traz de volta ainda, as patologias com uma centralidade muito grande também no aspecto medicamentoso, com via de lucratividade a partir da indústria de psicofármacos. Com isso, o projeto de desinstitucionalização e reinserção social fica extremamente combalido porque não apenas essas pessoas, de novo, são vistas como fonte de lucro privado, como também ficam desamparados. Se colocarmos toda essa conjuntura, somada aos efeitos que isso pode acarretar sobre o campo da saúde mental, pode ser bastante negativo e ainda não temos ideia da proporção que se pode tomar”, disse.

                 Para psicóloga  Flávia  Santos Nascimento, coordenadora do GT de Saúde Mental/CRP19, que mediou o debate,  o maior  desafio está em estancar a tentativa de  anulação das conquistas da Rede de Atenção Psicossocial-RAPS que é  formada pela  atenção básica em Saúde, atenção psicossocial especializada, atenção de urgência e emergência, atenção residencial de caráter transitório,  atenção hospitalar, estratégias de desinstitucionalização,  reabilitação psicossocial que atua, busca a superação do modelo asilar e garantia dos direitos de cidadania da pessoa com transtornos mentais. “É pela manutenção desse o modelo que lutamos. Pela singularidade do olhar para o indivíduo, para que ele consiga viver com sua família, longe do antigo modelo de isolamento”, completou.

                 Na leitura do Conselheiro Presidente do CRP19, Claudison Rodrigues, a Psicologia teve papel   fundamental nas lutas para se construir um saúde mental mais humana, digna,  ligada às condições dos direitos humanos. “Hoje o que estamos enfrentando no Brasil é uma tentativa de desmonte de tudo que foi construído ao longo dos anos. Acredito que esse momento, não somente pelo 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, mas da atual  conjuntura, discutir saúde mental, debater a luta antimanicomial, a rede de atenção psicossocial no Brasil com o fortalecimento  de vínculos entre trabalhadores,  usuários,  profissionais e familiares,  é  de  extrema importância”, ressaltou. 

                 As atividades do sábado começaram com a palestra “Afasta de mim esse cale-se: A insensata política de guerra às drogas e seus efeitos na realidade brasileira” que teve a mediação do psicólogo Frederico Dantas Vieira,  trabalhador da rede de medidas sócio educativas em Sergipe e membro do GT de Saúde Mental do CRP19. Entre os palestrantes, Luciana Santos Rodrigues, psicóloga, especialista em Psicologia Clínica e Saúde Mental, Alan Santana, psicólogo com formação em Psicoterapia Ericksoniana, Leandro Dominguez Barretto, médico da família e coordenador Geral do CAPS AD "Gregório de Matos", na Bahia.

                 Com  experiência na área de Saúde Coletiva/ Saúde da Família, atuando no cuidado em saúde, gestão do trabalho, educação permanente em saúde, saúde da família, educação a distância e sistemas de informação, Leandro Barretto, apresentou o resultado de pesquisas que apontam  a guerra as drogas como um mecanismo de controle social.  “Muitos autores trazem essa afirmação. Desde as primeiras proibições no século XIX até o movimento de guerra às drogas, disparado a partir dos Estados Unidos e incorporado por outros países na segunda metade do século XX, as drogas foram criminalizadas com interesse evidente em alguns grupos populacionais. Com esse controle quem morre é a população pobre e negra em um ostensivo viés racial e de controle de uma população indesejada”.

                 Leandro Barretto falou ainda do princípio da redução de danos a partir de uma nova forma de experimentação com  a valorização da escolha do outro, da  autonomia, da liberdade sobre o que  cada um quer fazer a sua vida. “A redução de danos é uma clínica centrada no outro, e nesse campo de álcool e outras drogas, que é uma questão de dimensão biopsicossocial, a gente fala que não existe  um protocolo, um caminho único a seguir.  Por isso a fala da experimentação, de diferentes possibilidades a depender das perspectivas da pessoa.  É a clínica da singularidade”, enfatizou.

                 Já a psicóloga Luciana Santos Rodrigues, especialista em Psicologia Clínica e Saúde Mental, tratou do processo de encarceramento, dos ditos anormais, diante da atual política de saúde mental instituído a partir dos manicômios e a tentativa de implantação de novos espaços que, necessariamente, não cuidam, mas sim, afastam. “Desde a época dos manicômios os diferentes eram tirados e colocados em lugar recluso em nome de um processo de higienização social.  Com   reforma psiquiátrica conseguimos diminuir leitos, fechar hospitais psiquiátricos. Isso está retornando com os manicômios, os investimentos em leitos psiquiátricos e em as comunidades terapêuticas. Esse movimento nada mais é do que remanicomialização do cuidar com a ideia de excluir, separar e botar pessoas que não se adequam à sociedade dita normal nesses espaços”, afirmou.

                 Nesse rumo, o psicólogo com formação em  Psicoterapia Ericksoniana , Alan Santana Santos, pós-graduado em Micropolítica da Gestão do Trabalho em Saúde e com experiência de trabalho em Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), é enfático em dizer que produzir a violência virou um negócio que a  loucura é pouco compreendida, mas muito explorada comercialmente. “As comunidades terapêuticas, de fato, estão institucionalizadas. Existe um aparato dentro do Estado que dá abrigo. A partir do momento que temos as comunidades terapêuticas dentro da Rede de Atenção Psicossocial,  com  normas técnicas para funcionamento e um financiamento e, contrasta essa prática dois relatórios espaçados por um período de tempo produzidos pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) que  mostram  que esses espaços, unanimemente, produzem algum tipo de violência, nós estamos dizendo que a violência não só foi institucionalizada  como também  está sendo paga, terceirizada pelo Estado ”. 

                  “Entre nós: As plurivozes do cotidiano nos territórios da loucura” foi o tema da mesa mediada pela psicóloga Stefanie Silva Vieira, coordenadora da rede de atenção psicossocial de São Cristóvão e membro da GT de Saúde Mental/CRP19. “Precisamos debater esse assunto, fazer uma reflexão até mesmo das nossas práticas.  Os usuários que hoje estão em tratamento voltado para saúde mental, precisam ser cuidados em liberdade. E esse aparato precisa partir do princípio de que ele é protagonista e que deve decidir  o é que melhor nessa caminhada”, declarou. 

                 Entres os conferencistas Iraci Rodrigues de Sá Telles, bacharelada em Serviço Social (FMU -SP), pós-graduada em Direito Sanitários(UEFS), pós-graduada em Preceptoria nos Cenários do SUS (SE), integrantes projeto  "Vida in cena",   Larissa Reis,  Danilo Aragão e Angélica dos Santos e o artista audiovisual e documentarista Dário José, que tem um trabalho dedicado a temas marginais. Dário José apresentou  o curta  “DizHerois”,  documentário produzido entre 2014 e 2018 no fluxo de usuários de crack da região da Luz, em São Paulo. O filme traz uma provocação acerca da arte como possibilidade de redução de danos. “O que nós fizemos foi ouvir os dons artísticos dessas pessoas. Cada um que largava o cachimbo para conversar conosco eram horas longe das drogas. Esse processo sensacional deu voz a essas pessoas. A provocação desse evento é  fazer com que isso saia dos nossos pares, da nossa bolha de deixar de falar sobre o assunto. A arte tem muito a contribuir nesse lugar. Intervenções artísticas não medem classe social. Se por um lado o governo não quer reduzir danos, ao que parece quer danos mesmo, nós queremos fazer isso, com a arte como afeto, como acolhimento, como redução de danos, como provocação”, declarou.

Lançamento de livro

                 Durante o I Seminário do GT de Saúde Mental, o psicólogo Frederico Dantas Vieira, trabalhador da Rede de Medidas Sócio Educativas em Sergipe, que lançou o livro “Liberdades Pretéritas”. A obra da Editora Feliz, lançado em janeiro de 2019, traz poesias reflexivas, do cotidiano e faz uma ponte com o momento de liberdades ameaçadas. “Este o segundo livro de uma jornada de escrita que mescla romantismo, crítica social e reflexão sobre o lugar de respeito de cada indivíduo”, explicou ao autor.

                 Segundo o autor, “Liberdades Pretéritas” é resultado da experiência na junção de Psicologia e a arte. “É a arte como uma linha possível de existir diferente. Dentro da Psicologia temos a escrita terapêutica como forma de catarse, da expressão artística como ferramenta de transformação dentro do trabalho com saúde mental”, concluiu.

GT Saúde Mental/CRP19

                 O  Seminário do GT  de Saúde Mental foi o primeiro evento realizado pelo grupo de trabalho que é composto pelas psicólogas Flavia dos Santos Nascimento (CRP19/002482), Daniela dos Santos (CRP19/3578), Stefanie Silva Vieira (CRP19/2078), Camilla Souza Montalvão (CRP19/3580), Wilderlândia dos Santos (CRP19/ 3625), e pelos psicólogos  Luis Rafael Passos Barreto Costa (CRP19/3621), Adson Ferreira Silva (CRP19/3513), Frederico Dantas Vieira (CRP19/1159).  O GT mantêm reuniões quinzenais, às segundas-feiras, 10h, no auditório do Conselho Regional de Psicologia  de Sergipe - 19ª Região, que fica localizado na Rua Osvanda Oliveira Vieira, 128, bairro Pereira Lobo, Aracaju(SE).